Sapateiro à moda antiga num centro comercial

O sapateiro é uma das profissões antigas que conseguiram evoluir com os tempos. Com o alargamento da indústria do calçado e a compra dos sapatos no sistema de pronto a vestir o sapateiro deixou actualmente de ter a função de fabricar o calçado mantendo-se somente como reparador de sapatos e botas em pequenas oficinas. O que não era de esperar era encontrar um destes artesões em pleno Centro Comercial de Massamá, mais conhecido por “Japão”.

Mas é ali que José Silva, do alto dos seus 70 anos, desenvolve a sua actividade há mais de 20 anos. E não se queixa de crises económicas: “Tenho muitos clientes e todos eles podem garantir que saem daqui com o sapatinho bem arranjado.”

Este sapateiro à moda antiga admite que as máquinas já fazem todo o trabalho que antes se fazia artesanalmente. “Hoje o plástico e a borracha substituíram em grande parte o couro ou a pele. Antigamente o calçado de trabalho era untado com sebo (ensebado), para ficar mais maneável e impermeável e o seu tempo de duração maior. As botas de trabalho dos homens eram cardadas e com protectores na sola.”

Mas não foi só isso que mudou. O próprio sapateiro artesanal já não é o que era antigamente, conforme recorda Carlos Varela, de 62 anos, que sempre gostou de ter os seus sapatos arranjados artesanalmente: “As principais ferramentas de um sapateiro eram a bancada e o banco, a máquina de braços, formas de madeira de todos os números, martelo de sapateiro, faca, ferro de tirar formas, luva de sapateiro, martelo de pregar sola, brochas, pregos de latão e protectores, entre muitas outras coisas. Hoje já pouco se vê disso.”

Mas o cenário na pequena oficina de José Silva o cenário não engana. A um canto, um molho de sapatos e botas à espera de concerto, com indicação do arranjo pretendido escrita a lápis sobre as solas. No outro, uma prateleira com as obras acabadas, à espera de quem as vá levantar. Tudo num ambiente antigo misturado com a construção típica de um centro comercial.

Afirma que o negócio já teve melhores dias, mas não se arrepende, nem por um minuto, de ter mantido sempre a porta aberta no primeiro centro comercial de Massamá. “Sempre tentei fazer preços justos, ao contrário de outros profissionais do ramo, mas é a minha maneira de ser, porque nunca quis ir ao bolso dos clientes injustamente. Antigamente, o que mais fazia era colocar meias solas, ou até solas completas, mas agora esse tipo de trabalho quase não aparece porque as pessoas têm mais sapatos, mesmo que de qualidade inferior, e apenas querem é trocar as capas, que se desgastam com maior rapidez.”

José Silva confessa que nem sempre é fácil corresponder aos pedidos dos clientes porque a maioria dos sapatos “não presta” e o seu conserto, muitas das vezes, não compensa. “Há pessoas que aparecem com sapatos do chinês e acham que o sapateiro consegue fazer milagres mas não é assim, porque certos arranjos não compensam. As pessoas nem sempre lidam bem com isso.”
No “O Botim”, José Silva garante qualidade e lamenta que muitos sapateiros tenham misturado outras artes com o da reparação de calçado: “Muitos sapateiros que existem agora misturam o arranjo de calçado com fazer chaves ou vender fechaduras. Fazem tudo menos reparar os sapatos como deve ser. Sempre me recusei a enveredar por esse caminho. Gosto da minha loja e é assim que ela vai ficar até eu decidir que já é tempo de descansar. E olhe que isso já esteve mais longe.

Só tenho pena de saber que dificilmente alguém continuará este trabalho.”
Mas, enquanto decide o seu futuro, o presente é claro como a água. Continuar a trabalhar numa das mais antigas profissões do mundo. Por isso, se pretender arranjar aquele par de sapatos de que tanto gosta e que é único na sua vida, mas que está numa prateleira lá de casa à espera de reparação, já sabe onde ir: ao “O Botim”, em plena Av. 25 de Abril, no velhinho e sempre novo Centro Comercial de Massamá (Japão).

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