Pânico na carreira 163 da Vimeca

      5 comentários em Pânico na carreira 163 da Vimeca

“Ele insultou-me e ameaçou-me. Fiquei cega de raiva e também o insultei. Depois foi buscar um objecto preto, apontou-me à cabeça e disse que a minha sorte era estar com a minha filha ao colo”. As declarações foram feitas, ao jornal “O Comércio de Massamá e Monte e Monte Abraão” (CMMA), por Natércia Macedo, de 41 anos, e referem-se a uma situação insólita ocorrida no dia 17 de Outubro de 2018 numa viagem da carreira 163 da Vimeca, que liga Massamá ao Colégio Militar (Centro Comercial Colombo). Acabou, segundo relatou uma testemunha do incidente, por ser ameaçada com uma pistola pelo motorista daquela carreira

Tudo terá começado cerca das 17h15. Natércia encontrava-se na paragem de autocarro existente perto da Junta de Freguesia de Massamá. “Estava a chover e abriguei-me na paragem com a minha filha ao colo, que tem dois anos e nove meses. Fiz sinal ao motorista para parar. Ele estava ao telemóvel e não se apercebeu. Comecei a correr e a gritar para ele parar. O homem parou e quando entrei no autocarro reclamei pela sua falta de atenção. O indivíduo disse-me ‘cala mas é essa boca e senta-te’. A partir daí começamos a discutir e ele ofendeu-me várias vezes. Admito que também fui mal-educada, mas fiquei cega de raiva porque ele não tinha razão. Além disso, estava preocupada porque a minha filha estava cheia de febre.”

“Vi o motorista apontar uma pistola à cabeça da senhora”, Óscar Costa

Óscar Costa, de 47 anos, seguia no autocarro com a mulher e conta o que viu: “Algumas pessoas concordaram com a senhora e também começaram a mandar vir com o motorista. Na primeira paragem da Avenida Aquilino Ribeiro, junto a um restaurante, ele levantou-se e ameaçou a mulher. Disse que lhe dava duas estaladas e queria que ela saísse à força do autocarro. Como não a conseguiu demover foi ao lugar do motorista e voltou com uma pistola na mão. Algumas pessoas resolveram sair do autocarro e foram-se embora. A minha mulher, que está grávida, foi uma delas. O homem lá se apercebeu da loucura que estava a fazer e retomou a marcha. A mulher saiu na paragem seguinte, junto à Escola Primária da mesma avenida. O motorista levou o autocarro até à paragem da estação de comboios e foi substituído por outro. Foi-se logo embora. Vivemos momentos de pânico. Foi horrível.”

Aconselhada a não fazer queixa

Natércia Macedo dirigiu-se à PSP para apresentar queixa, mas acabou por ser aconselhada a não o fazer de imediato: “O polícia perguntou-me se eu conseguia identificar o motorista e eu expliquei que estava tão cega de raiva que nem me lembrava da cara do homem. Ele aconselhou-me que o melhor era não fazer nada e explicou que tinha seis meses para apresentar a queixa. O meu marido e o meu pai acham que eu devo ficar quieta para não arranjar problemas. Mas eu vou para a frente. Aquilo que o homem fez é inadmissível. Não tinha o direito de ameaçar que me batia e muito menos de me apontar uma coisa à cabeça e dizer que a sorte para continuar viva era ter a minha filha ao colo.”

De acordo com a legislação em vigor, perante os factos relatados, estaremos na presença de um crime de ameaça agravada pelo facto de ter sido feita por um funcionário de uma empresa de transportes públicos. O artigo 153 do Código Penal diz que “quem ameaçar outra pessoa com a prática de crime contra a vida, a integridade física, a liberdade pessoal, a liberdade e autodeterminação sexual ou bens patrimoniais de considerável valor, de forma adequada a provocar-lhe medo ou inquietação ou a prejudicar a sua liberdade de determinação, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.”

Porém, esclarece ainda o mesmo artigo, “se a ameaça for com a prática de crime punível com pena de prisão superior a 3 anos, o agente é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias”, sendo que a ameaça de morte se enquadra neste ponto da legislação. O procedimento criminal depende, no entanto, de queixa, o que no caso em apreço ainda não foi feito.

Vimeca culpa passageira

“O Comércio de Massamá e Monte Abraão”, confrontou a Vimeca/Transportes de Lisboa com esta situação e a empresa responsabiliza a passageira pelo sucedido, sem responder às questões colocadas pelo nosso jornal, antes tentando coagir e condicionar a forma de elaboração na notícia. Aqui fica a posição oficial da Vimeca na íntegra:

“Acusamos a receção do seu e-mail, cujo conteúdo mereceu a nossa atenção. Reportando-nos ao teor do mesmo, desde já somos a informar que não admitidos e não vamos admitir que a idoneidade de uma empresa com mais de 85 anos de existência seja posta em causa.

As questões já por si colocadas, são suscetíveis de manchar desde já, sem o princípio do contraditório, o nosso bom nome na praça pública, tendo em conta o que já circula na Internet.

O dever jornalístico é apurar cabalmente todos os factos para dar a notícia correta e não fazer sensacionalismo, a versão que temos para apresentar é totalmente contraditória às inúmeras questões colocadas, o nosso motorista, segundo a sua versão, foi ao longo da carreira 163 insultado, enxovalhado por uma passageira e no final da sua saída, esta e outro passageiro já do lado de fora do autocarro, ameaçaram a integridade física do motorista.

Relembro que o autocarro não foi abandonado e que seguiu a carreira e o serviço que lhe estava destinado. Que se procure dar notícias à sociedade, mas esta não pode colocar em causa não só o bom nome da nossa empresa, que não vamos deixar, nem o bom nome do motorista que no seu posto de trabalho foi enxovalhado, insultado e ameaçado verbalmente.

Assim e porque acredito que como profissional que é, que cumpre todos os deveres deontológicos e que a notícia deixe de ter o lado sensacionalista para vender e não ponha em causa a imagem da nossa empresa, a fim de não termos que tomar, se virmos o bom nome difamado, todos os mecanismos ao nosso dispor para repor a verdade dos factos. A nossa empresa preza-se pelas mais de 10.000 horas de formação que ministra aos seus profissionais, sempre com o interesse primordial na satisfação dos seus clientes, pelo que, nenhuma situação como esta iria ser admitida pela nossa empresa. Esperando que estes esclarecimentos possam com a sua notícia repor os factos. Sem mais para o momento, subscrevemo-nos com os melhores cumprimentos. Atenciosamente, Sandra Cruz, Gabinete Jurídico e Contencioso.”

Nota da Direção: “O Comércio de Massamá e Monte Abraão” esclarece que trata as notícias com rigor, isenção e objectividade. Recorda que o tratamento dado às notícias tem o cariz, sensacionalista ou não, que o jornalista lhe quiser dar, sempre com respeito pela verdade dos factos. Não é a Vimeca que vai ensinar os jornalistas deste órgão de informação a escrever. E que fique claro que ameaçar o nosso jornal e tentar influenciar a maneira como uma notícia deve ser redigida também é crime.

5 comentários em “Pânico na carreira 163 da Vimeca

  1. José Pereira

    É uma vergonha esta empresa. Situações desta natureza já têm surgido várias vezes. Enorme falta de respeito pelos utentes. Quer por comportamentos inadequados por parte dos motoristas quer pelo incumprimento de horários. Fruto da má gestão e mau controlo por parte dos responsaveis. Tratando-se de crime quero ver qual a posição do incompetente que controla estes operacionais.

    Responder
  2. Pedro Silva

    Já não bastava o mau serviço da empresa, falta de motoristas, falta de material circulante, etc…mas motoristas andarem armados e apontarem armas à cabeça de passageiros quando até a passageira tinha razão..OMG…Até onde vai esta empresa?! Todos sabemos do mau serviço que é prestado por esta empresa e tantas histórias que assim o provam…Pergunto-me quando alguém morrer algo se faz?! Não deveria ser antes que aconteça algo pior?! Falta de concorrência e de fiscalização à Vimeca!

    Responder
  3. Alves

    Eu como funcionário da Vimeca quero deixar claro que nós motoristas fazemos da nossa parte o melhor para servir a população. Nenhum motorista da empresa anda armados. Nós como motoristas entramos em bairros sociais e somos mais vulneráveis por situação de todo tipo de violência seja ela qual for. Agora denegrir aquilo que fazemos por dedicação e empenho e fake news para mim. Ibope era fazer um acontecimento do que sofremos como motoristas. Vocês deveriam e nós respeitar cidadao

    Responder
    1. Tiago Pinto

      Caro Alves.
      Muito obrigado pelo seu comentário.
      Não queremos de maneira nenhuma julgar todos os condutores da Vimeca como maus profissionais. Como diz o ditado “uma árvore não faz a floresta”.
      Reconhecemos o trabalho dedicado e as dificuldades do serviço que prestam todos os dias e respeitamos. Acredite que respeitamos.
      Pedimos À Vimeca esclarecimentos que não foram dados. Se quiser partilhar connosco o que é o seu dia-a-dia a conduzir uma carreira da Vimeca, e explicar pormenorizadamente os abusos de que são alvo, estamos cá para lhe dar voz.O nosso email é público e está na secção de contactos deste site.
      No entanto, não aceitamos que apelide um facto ocorrido numa das camionetas da empresa como notícia falsa. Temos testemunhas, uma delas até dá a cara, temos as declarações da vítima. Fizemos jornalismo.

      Responder
  4. Pingback: “Público” acompanha notícia avançada em exclusivo por “O Comércio” – O Comércio de Massamá e Monte Abraão

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *