O amolador de facas e a chuva

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Era sábado. O primeiro dia deste mês de Fevereiro. E o amolador de facas descia a Av. Aquilino Ribeiro, em Massamá. A rua estava quase vazia e ele lá ia tocando a gaita, rompendo o silêncio com a sua típica melodia para atrair a clientela. Muitos moradores já conhecem a música de amolar facas, mas há quem nem sequer conheça a antiga profissão e pergunte, tal como a minha filha de 17 anos: “Ele amola e parte as facas?”. Lá se explica que não, que na verdade ele arranja as facas que ficam sem fio para cortar o que quer que seja de forma decente. “E o que é o fio de uma faca?”. Pois…

Voltemos ao amolador. Chama-se Carlos Madeira e tem 62 anos. Veste-se como um andarilho e percorre as ruas de Massamá, uma vez por semana, levando a bicicleta com a roda de afiar pela mão. Ao final da avenida é mandado parar por uma senhora que corria para ele de facas na mão. Uma cliente. “Nada mau nos tempos que correm. Tinha começado a volta no início da rua e esta já é a segunda pessoa a pedir para lhe tratar das facas”, explicou ao jornal “O Comércio de Massamá e Monte Abraão” esta ilustre personagem.

Há quantos anos amola facas? Carlos Madeira já nem se lembra. “Olhe, já lhes perdi a conta. Mas seguramente há mais de 40. Se só faço isto? Não, também faço uns trabalhos de pintura de casas quando aparece. Mas é como afiar as facas. Cada vez existe menos procura por mestres. Agora é tudo empresas.”

O velho ditado

Diz ele que amolar facas já foi chão que deu uvas. “Sempre aparecem clientes, mas são pessoas antigas. A malta nova prefere comprar uma faca do que arranjar a que já não corta. Além disso, já existem pequenos aparelhos para afiar as facas e que as pessoas têm em casa. Se é a mesma coisa? Claro que não. Mas não me interessa. A verdade é que quando estas pessoas que dão valor à minha profissão morrerem eu fico sem clientes, mas eu já não caminho para novo e também vou amolar facas para o paraíso, se ele existir”, afirma meio a brincar, meio a sério.

E tem histórias para contar? Carlos Madeira, com o cigarro preso no canto dos lábios, sorri. E enquanto afia a faca da cliente de forma mecânica, quase sem olhar para a pedra de amolar, lá diz: “Tenho muitas. Mas estão todas na minha imaginação. Quando vou pelas ruas penso naquilo que as pessoas estão a fazer e se terão tempo para vir amolar a faca, a tesoura ou até o guarda-chuva. Honestamente, não me preocupo com os outros. Fazem sinal para eu parar e aquilo que tento é fazer o meu trabalho rapidamente e bem feito, porque as pessoas hoje em dia não gostam de esperar. Algumas lá dão uns dedos de conversa, mas poucas.”

Afiar uma faca custa menos de três euros

“Quando vou pelas ruas penso naquilo que as pessoas estão a fazer e se terão tempo para vir amolar a faca, a tesoura ou até o guarda-chuva.”

Questionado sobre os preços que pratica explica que depende: “É conforme o instrumento que for para afiar. Mas nunca é mais de 3,5 euros. A maior parte das facas que me trazem são médias e afiar custa 1,5 euros. 

A conversa já durava o tempo de afiar a faca da cliente e Carlos Madeira tinha de retomar o seu percurso. Tempo, porém, para uma última pergunta:

Acredita no ditado de que quando o amolador passa se adivinhava chuva?

“É um ditado antigo, mas se fosse verdade não parava de chover. É que eu ando todos os dias na rua de bicicleta e flauta nos lábios e nem sempre preciso do guarda-chuva…” 

Mas a verdade é que naquele sábado choveu a bom chover…

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