Esterilização em cães e gatos

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Por: Drª Bárbara Nunes
Médica do Hospital Veterinário de Massamá

Nos dias de hoje, a temática da castração/esterilização nos nossos amigos de quatro patas continua a suscitar muitas dúvidas, mesmo para os donos mais informados.

Há muito tempo que a esterilização/castração deixou de ser proposta pelos médicos veterinários com o simples propósito de prevenir ninhadas indesejadas. Na verdade, a prevenção de doenças deve constituir o principal motivo para optarmos pela cirurgia que, ao contrário do que se possa pensar, constitui um procedimento cirúrgico relativamente simples para um cirurgião com alguma experiência.

Cães e cadelas

A castração nos cães, na maioria das vezes, é procurada pelos donos como uma potencial solução para problemas comportamentais. Casos como agressividade ou marcações de território em sítios inapropriados, poderão ser mitigados. Convém no entanto salvaguardar que a efetividade da castração pode ser condicionada pela idade do cão: quanto mais jovem maior probabilidade de corrigirmos este tipo de problema. Do ponto de vista médico, a castração é recomendada como medida preventiva de patologias a nível testicular e/ou prostático. A remoção destes órgãos previne o desenvolvimento de patologias graves, tais como infeções, processos tumorais ou de outro tipo. Vários estudos comprovam que as afeções prostáticas são muito frequentes nos cães inteiros e que o seu risco de ocorrência é sete vezes superior nos animais com idade igual ou superior a cinco anos.

Relativamente às cadelas, idealmente devem ser esterilizadas antes do primeiro cio. As cadelas podem atingir a puberdade entre os seis e os catorze meses de idade, havendo uma tendência para quanto menor o porte da cadela mais precocemente surgirá o primeiro cio. A esterilização permite prevenir por completo doenças uterinas e ováricas (infeções, hiperplasias, tumores e outras), pela remoção dos referidos órgãos, e contribui para a diminuição da ocorrência de tumores mamários, na sua maioria altamente malignos. As fêmeas que não sejam sujeitas a este procedimento apresentam um risco sete vezes maior de desenvolverem tumores mamários numa idade mais avançada, quando comparado com o risco em fêmeas esterilizadas. Comparando a incidência de tumores mamários em cadelas inteiras, se as cadelas foram esterilizadas antes do primeiro cio o risco é de 0,5%, após o primeiro cio é de 8% e entre o segundo cio e os dois e meio anos de idade é de 26%.

Gatos e gatas

Nos gatos a castração tem também um papel fundamental na prevenção de comportamentos indesejados. Sendo que a maioria dos gatos atendidos no nosso hospital vive exclusivamente dentro de casa,  a principal preocupação dos donos passa por evitar fenómenos de micção errante. Os gatos castrados, por norma, não fazem marcação de território e portanto fazem as suas necessidades quase exclusivamente no litter, acabando por facilitar muito a rotina de uma casa. É importante salientar que os gatos tendem a iniciar este comportamento de marcação perto dos seis meses de idade, pelo que o ideal será castrar os animais muito perto desta altura e, preferencialmente, antes de se iniciar o comportamento descrito.

Nas gatas, o primeiro cio ocorre por volta dos seis meses de idade, não passando despercebido à grande maioria dos donos. De facto, o cio nas gatas está relacionado com miados altos e excessivos que acabam por se tornar incómodos para o descanso dos donos e para a vizinhança! Acontece que este está longe de ser o motivo principal pelo qual a esterilização está recomendada nas gatas, apesar de ainda ser, muitas vezes, o único argumento que os donos utilizam para avançar com a cirurgia. Na verdade, tudo aquilo que se descreve acima relativamente às cadelas se pode aplicar também às gatas, com exceção da ainda maior incidência de tumores mamários em gatas inteiras comparativamente a cadelas inteiras. Ou seja, se as gatas forem esterilizadas antes dos seis meses de idade, o risco de desenvolverem tumores mamários malignos é de 9%, até um ano de idade é de 14% e entre um e dois anos e meio de idade é de 89%. Assim, com valores tão assustadores, torna-se quase obrigatório, por uma questão de bem-estar futuro, esterilizar as gatas antes do primeiro cio.

Cirurgia

No Hospital Veterinário de Massamá a cirurgia propriamente dita é apenas um dos passos para o sucesso do procedimento. Antes da esterilização/castração, todos os animais devem passar por uma consulta para serem avaliados e fazer análises pré-cirúrgicas para garantir que são anestesiados em segurança. Os fármacos utilizados para a indução e manutenção anestésica são metabolizados a nível do fígado e/ou dos rins, sendo essencial averiguar que estes órgãos funcionam corretamente. De igual forma, todos os pacientes com alterações à auscultação ou a partir de uma certa idade deverão fazer uma ecocardiografia pré-cirúrgica. No caso específico dos gatos, deve ainda ser realizado o teste FIV/FeLV para atestar que os mesmos não são portadores de sida e/ou leucemia felina.

No dia da cirurgia, todos os nossos pacientes são colocados a soro mantendo uma via aberta, não apenas para administração de fármacos anestésicos mas também para termos uma via aberta para o caso de termos de intervir em urgência. Numa primeira fase da anestesia faz-se a indução da mesma e em seguida procede-se à entubação endotraqueal do animal. A anestesia é mantida com o auxílio de um aparelho de anestesia volátil, sendo também assegurado um aporte de oxigénio adequado ao animal. Procede-se então à assepsia das zonas de acesso cirúrgico e o animal está pronto para ser intervencionado. É importante salientar que os nossos pacientes são monitorizados no decorrer do tempo cirúrgico, no qual são avaliados todos os sinais vitais. Assim que o animal acorda é transferido para uma das nossas salas de internamento, onde continua a ser constantemente monitorizado até estar estável o suficiente para ter alta clínica. Na grande maioria das vezes não há necessidade do animal permanecer durante a noite nas nossas instalações, tendo alta no dia da cirurgia.

Por norma, a recuperação deste tipo de cirurgia é bastante rápida. Em casa, os donos apenas têm que assegurar que o animal não acede à zona da sutura, respeitando as indicações do médico veterinário relativas ao uso de um body ou colar isabelino, bem como tentar restringir um pouco os movimentos do animal nas primeiras 48 a 72 horas. Em termos de medicação pós-operatória, será sempre prescrito anti-inflamatório e, em casos específicos, um antibiótico durante alguns dias. É ainda importante fazermos uma mudança gradual na alimentação dos animais, fornecendo-lhes uma dieta específica para animais esterilizados. Esta alteração deve-se ao facto de animais esterilizados terem uma maior tendência para o ganho de peso.

Considerações finais

É importante salientar que, atualmente, a medicina veterinária assenta muito na profilaxia e prevenção. A esterilização/castração deixou de funcionar apenas como forma de evitar ninhadas indesejadas, sendo os seus benefícios extensíveis a nível social, comportamental e, de maior importância na nossa opinião, a nível médico.

Em suma, conjugando toda a informação atualmente disponível com uma ótima relação dono – animal – médico veterinário, conseguiremos dar uma maior e melhor qualidade de vida aos nossos amigos de quatro patas.

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