“A Igreja tem de reaprender a linguagem da caridade”

É italiano. Dono de 42 anos. Está há quatro na Quinta do Castelo, local onde funciona o Centro Missionário Padre Paulino, em Massamá. Sim, porque apesar de estar localizado no sopé do Casal do Cotão, a quinta é da Freguesia de Massamá e Monte Abraão. O mesmo acontece com as bombas da BP, em pleno IC-19. Mas isso são contas de outro rosário. Voltemos ao Centro Missionário e vamos tentar reconstruir a história nas palavras do padre Ermanno Savarino, o tal “cota” de que falávamos no início deste texto:

Quem é o senhor?
Padre Savarino – Eu? Não sou ninguém. Faço parte do Centro Missionário Padre Paulino e todos nós temos por missão proporcionar a todas as pessoas que aqui interagem, bem como aos visitantes, independentemente das suas motivações, um encontro fácil, intenso e completo com a missão dos Missionários da Consolata, suscitando inquietação, reflexão, oração e ação em favor do próximo e das comunidades missionárias no mundo inteiro.

“Este arco tem 32 cores e representa a diversidade humana”, padre Ermanno Savarino

O que é o Seminário da Consolata?
Já foi muita coisa. Esta obra nasceu em Portugal em1943, em Fátima. Foi edificada porque os missionários que queriam ir para as colónias portuguesas tinham de passar por cá. Formaram-se muitos missionários que foram para países como Angola e Moçambique. Nos anos 60 isto foi mais uma colónia de férias, Depois dos anos 70 até aos anos 90 do século passado passou a ser uma casa de formação. Com o decréscimo das vocações tivemos de repensar tudo.

E que novidades surgiram? 
Na verdade não surgiram novidades. Surgiu outra forma de ver as coisas. Esta quinta está paredes meias com a Grande Lisboa e com a sua zona mais rural. Vivemos no fim do mundo e no início da industrialização. Ou seja, estamos numa zona urbana e rural ao mesmo tempo. E não é fácil gerir esta dicotomia. Felizmente, temos conseguido conciliar as coisas, abrindo o nosso espaço a toda a comunidade, sobretudo aos mais carenciados. Ninguém fica sem resposta quando nos pede ajuda. Tentamos fazer das palavras dos papas João Paulo II e Francisco realidade. 

Que realidade é essa?
Simples. Uma realidade em que a Igreja tenta reaprender a usar e praticar a caridade e a solidariedade. Pelo menos é isso que fazemos aqui na Consolata. Somos dois padres, quatro estudantes para clérigos e um irmão. Estão aqui italianos, quenianos, ugandeses, portugueses e guineenses. A nossa sala de estar e almoçar/jantar tem 32 cores num arco para mostrar a nossa diversidade. Vamos receber em breve dois cidadãos sudaneses. Farão parte dessas cores. 

Qual é a vossa missão? O que vos motiva?
Debruçarmo-nos sobre as feridas da sociedade. A nossa razão de ser? O que nos motiva? Quando ajudamos os nossos semelhantes a nossa vida complica-se maravilhosamente. Nem queira imaginar o quanto esta ajuda desinteressada nos faz felizes.

O que fazem além da evangelização?
Muita coisa. Temos hortas comunitárias, recebemos anualmente milhares de escuteiros que aqui vêm acampar, acolhemos temporariamente pessoas em dificuldades e estamos a tentar recuperar o património histórico. Também estamos a criar uma pequena quinta pedagógica (com patos, galinhas, coelhos, etc).

Em concreto, numa quinta de dimensões enormes, como pensam rentabilizá-la?
Só pode estar a brincar. Esse objetivo não existe. Não queremos lucros financeiros. Pretendemos de forma clara dinamizar cada vez mais as atividades da Quinta para que a mesma se torne um espaço pessoal e comunitário de reflexão e ação em prol das missões. Criar e potenciar as iniciativas de caráter pastoral, em articulação com a Família da Consolata, as paróquias e grupos que queiram, connosco, aprofundar a fé. Proporcionar a todas as pessoas que interagem na Quinta uma vivência real da comunidade cristã e missionária. Colocar os recursos da Quinta ao serviço das pessoas que dela necessitem. Definir e implementar temas missionários, integrando os diversos lugares e desenvolvendo atividades que promovam a relação e a integração. E, finalmente, tornar a Quinta sustentável e promover atividades de âmbito religioso, social, ambiental, agrícola, pecuário e florestal.

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